Economia

Quando sustentabilidade se transforma em ferramenta de trabalho

5 mai 2026 18:01

Desde a fase de projecto até à construção dos edifícios, incluindo escolha de materiais, todo o processo está hoje pensado de forma a garantir maior sustentabilidade, não só económica mas também ambiental

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Daniela Franco Sousa

Desde a arquitectura dos edifícios, passando pela construção e pela escolha dos materiais, todo o processo está hoje desenhado de modo a dar resposta a necessidades de eficiência energética e preservação do meio ambiente. Aliás, as próprias instalações e formas de produzir das empresas do ramo da construção, e não só, estão cada vez mais preparadas para laborar deixando a mínima pegada carbónica possível.

Sustentabilidade não pode ser um fardo
Carlos Batista é presidente do Conselho de Administração da Tecnorém, fundada em 1989. A construtora emprega hoje 435 funcionários tendo alcançado, em 2024, um volume de negócios na ordem dos 55,4 milhões de euros, que em 2025 subiu para 102,6 milhões de euros. “Cada vez mais, as directivas europeias e demais legislação assnos encaminham para a construção de um sector mais sustentável.

Desde os requisitos na fase de arquitectura, com a selecção preferencial de materiais, cuja avaliação do ciclo de vida já seja uma realidade, ao desempenho energético final dos edifícios, o sector da construção começa a sofrer grandes mudanças”, constata Carlos Batista.

“Esta transposição e visão direccionada para a preservação do ambiente é necessária, sobretudo num sector que representa grande parte da nossa economia. Contudo, também é preciso que essas directrizes prevejam a capacidade de resposta do mercado. Porque para um arquitecto seleccionar determinado produto, é preciso que o mercado seja depois capaz de o fornecer, a preços competitivos e com facilidade de implementação”, realça o responsável pela Tecnorém.

“Numa altura em que o sector está sobrecarregado com obras e prazos apertados, fazer cumprir estas metas torna-se uma dificuldade acrescida, cuja factura ninguém quer assumir num cronograma já apertado”, aponta o empresário, para quem “a sustentabilidade não pode ser um fardo imposto, mas sim uma ferramenta viável de trabalho”.

“Sem essa fluidez na cadeia de abastecimento, corremos o risco de criar projectos admiráveis no papel que são impossíveis de concretizar no terreno”, prossegue o empresário.

No caso da Tecnorém, são várias as formas através das quais a construtora se tem vindo a adaptar a estes critérios de sustentabilidade. “Através de uma actualização constante e procura de soluções que correspondam às exigências que nos são colocadas. Temos equipas especializadas nas diversas áreas que diariamente procuram actualizar-se. A subscrição de newsletters e associativismo são elementos-chave para nos mantermos actualizados, procurando depois completar o conhecimento com acções de formação, participação em congressos e webinars”, refere Carlos Batista.

“Aliado a esta dinâmica, recorremos a parcerias estabelecidas ao longo dos anos, que acabam por nos conseguir auxiliar e encaminhar para a melhor solução. É desta forma que, muitas vezes, conseguimos transformar a complexidade legislativa numa vantagem competitiva, oferecendo aos nossos clientes a confiança a que os habituamos”, sublinha ainda.

Procura mais esclarecida e mais exigente
Também Pedro Santos, arquitecto da Marinha Grande, salienta que “a construção civil é indispensável na nossa vida, mas continua a ser um dos sectores que mais consome recursos e produz resíduos. Hoje, as necessidades de eficiência energética e de preservação do ambiente obrigam a uma transformação profunda na forma como projectamos, construímos e escolhemos materiais”.

No entanto, salienta, “esta mudança enfrenta uma contradição: a pressão para construir rapidamente raramente é compatível com processos ideais de separação, reaproveitamento e valorização. Na prática, a urgência económica, os prazos de obra e os custos acabam muitas vezes por condicionar a escolha de soluções mais sustentáveis”. O arquitecto observa que “esta realidade está a mudar a forma como pensamos a arquitectura, a construção e os materiais de construção, não apenas do ponto de vista técnico, mas sobretudo na vida das pessoas. Estes temas deixam de ser abstractos, quando se traduzem numa casa mais confortável, numa factura de energia mais baixa, em menos problemas de humidade e em decisões mais conscientes sobre o investimento feito na habitação”.

Ao mesmo tempo, entende Pedro Santos, “também o cliente está hoje mais informado e mais atento a estas questões. Chega muitas vezes ao processo com maior sensibilidade para o impacto ambiental das soluções adoptadas. Essa mudança está a influenciar o sector, porque obriga técnicos, projectistas e construtores a responder não apenas a exigências legais e técnicas, mas também a uma procura mais esclarecida e mais exigente”.

“Hoje, os projectos são obrigados a pensar melhor o conforto desde o início. A implantação da construção, a orientação solar, a entrada de luz natural, a ventilação, a protecção do calor excessivo no Verão e a capacidade de manter o calor no Inverno passaram a ser questões essenciais. Isto significa que a arquitectura já não deve preocupar-se apenas com a forma do edifício, mas com a forma como esse espaço vai ser vivido todos os dias”, prossegue o especialista.

Paralelamente, “construir bem tornou-se tão importante como construir. A qualidade dos materiais, do isolamento, das caixilharias, da cobertura e da própria execução em obra tem impacto directo no desempenho da habitação. Os materiais já não são avaliados apenas pelo preço inicial”, verifica Pedro Santos.

“Hoje, é crucial perceber a sua durabilidade, exigência de manutenção, impacto ambiental e o seu contributo para o desempenho da habitação. Quando estes aspectos falham, os efeitos sentem-se rapidamente: desconforto térmico, infiltrações, condensações, maior consumo energético e custos acrescidos de manutenção”, exemplifica o arquitecto.

Importa também reconhecer que “a habitação não precisa de depender sempre de um excesso de tecnologia para ser eficiente. Em muitos casos, tende a associar-se qualidade a um conjunto crescente de sistemas e equipamentos, quando a resposta pode começar por soluções mais simples: edifícios bem orientados, ventilação natural, boa protecção solar, materiais adequados e sistemas robustos e fáceis de manter”, acredita Pedro Santos, que deixa outra reflexão, que, na sua óptica, merece discussão própria. “Teremos sempre de construir de novo ou deveríamos olhar com mais atenção para a reabilitação do parque edificado existente, criando incentivos para este tipo de projectos?”

“No fundo, a sustentabilidade e eficiência na construção não dependem apenas do edifício acabado, mas de todo o processo que o envolve. O verdadeiro desafio está em criar edifícios mais confortáveis, duráveis, económicos na utilização e mais responsáveis na forma como consomem recursos ao longo do tempo”, advoga o especialista.

Melhorar desempenho, começando pela empresa

Cesário Simões, director industrial da Sildoor, explica que a empresa de Leiria tem vindo a transformar a sua actuação, no sentido de se ajustar às necessidades de eficiência energética e preservação do meio ambiente, tendo integrado, ao longo de mais de 25 anos de actividade, várias normas que visam reduzir a pegada de carbono. Ao longo dos últimos anos foi grande o investimento em painéis fotovoltaicos, cuja energia solar produzida responde a 70% das necessidades da Sildoor.

Foi também adoptada iluminação LED e o processo de pintura, lacagem e envernizamento está todo ele assente em energia eléctrica, sem recurso a energia fóssil, observa o responsável. Com 80% da produção canalizada para o mercado interno, e 20% comercializada no exterior, sobretudo em França, Luxemburgo e Moçambique, Cesário Simões, refere que o crescimento do negócio ainda resulta da maior preocupação dos clientes com a boa relação qualidade-preço e menos com o compromisso assumido pela Sildoor com a preservação do meio ambiente.

À excepção da crise de 2011, o histórico da empresa tem sido de crescimento sustentado. Com uma equipa de 71 pessoas, fechou 2025 com volume de negócios acima dos 5 milhões de euros e espera terminar este com valor ainda maior. Se a crise trouxe alguma lição, foi a necessidade de diversificar artigos e, actualmente, a Sildoor produz e comercializa roupeiros, cozinhas, portas, também pisos flutuantes com vinil/spc e desenvolve projectos “chave-na-mão”, refere Cesário Simões. É esta variedade, qualidade e preço que continuam a captar clientes, nota o director industrial.

Clientes incentivados a partilhar responsabilidades
Detida pelo grupo Neuce, a Argatintas é uma empresa que conta com mais de 40 anos de actividade, que tem em Leiria uma fatia de mercado relevante, distrito onde reúne mais de 70 revendedores, incluindo lojas multimarca, explica Paulo Valverde, técnico comercial da Argatintas nas zonas Centro e Sul do País (parte do distrito de Castelo Branco, também os distritos de Leiria e de Santarém).

A operar no ramo das tintas desde 2005, Paulo Valverde verifica que a preservação do meio ambiente está entre as preocupações desta empresa, cujos produtos têm vindo a ser aperfeiçoados ao longo dos anos. A sensibilização das várias gerações, para o respeito pelo planeta, é outra das suas medidas, realça o técnico comercial, que lembra, por exemplo, uma das iniciativas realizadas junto de crianças na Associação Casa d’Árvore, localizada em Pedreanes, na cidade da Marinha Grande.

Além disso, a Argatintas publicou um manual de boas práticas, com o objectivo de sensibilizar os utilizadores das suas tintas e vernizes para uma utilização ecologicamente responsável, com vista à redução dos resíduos gerados. “Há mais de 20 anos, a indústria dprodutos de pintura passou, em grande parte, de produtos de revestimento à base de solventes para alternativas aquosas para o mercado de decoração, levando a uma menor emissão de solventes para a atmosfera (COV - Compostos Orgânicos Voláteis)”, realça a empresa.

No entanto, “apesar de se usarem produtos de base aquosa, continuam a ser misturas químicas, e, portanto, embora a emissão de solventes para a atmosfera seja praticamente nula, existem outras vias de emissão (como por exemplo através da água) pelas quais estes produtos de pintura poderão criar problemas ambientais”, refere no seu manual de boas práticas.

Para a Argatintas é importante: comprar bem, reutilizar e reciclar. No acto de compra, “dimensione correctamente a área a pintar, peça ajuda no ponto de venda, verifique na embalagem qual o rendimento da tinta e calcule a quantidade necessária para o seu projecto”, sugere a empresa. No que toca à reutilização, a Argatintas lembra que “uma embalagem de tinta não aberta pode durar anos se for armazenada correctamente” e recomenda que, “quando estiver a terminar o seu projecto, olhe para a lata.

Se sobrar uma pequena quantidade de tinta, use-a”. Depois de terminado o projecto, se ainda sobrou uma quantidade de tinta considerável, armazene-a para retoques ou projectos futuros. Se não reutilizar a tinta que armazenou, ofereça a uma instituição ou a uma escola, ou partilhe nas redes sociais”, sugere ainda.

O manual apela ainda à reciclagem da embalagem: “Após a utilização, dê um destino correcto à embalagem vazia (ecoponto amarelo). Se é um profissional/ industrial contacte um operador de gestão de resíduos autorizado. As embalagens de metal e plástico recicladas podem ganhar uma nova vida”. E lembra vários comportamentos a evitar “não coloque embalagens com restos líquidos de produtos nos contentores; não deite tinta (incluindo diluentes) nos esgotos domésticos e/ ou em cursos de água, inclusive ao limpar ferramentas de pintura; ão abandone embalagens em locais não adequados (terrenos baldios, etc.)”