DEPRESSÃO KRISTIN

Negócios reabrem a diferentes velocidades. Resiliência impera

15 fev 2026 09:00

Apesar das feridas nas instalações, da energia e das telecomunicações que ainda não chegam a todo o território, os empresários não baixam os braços e estão a tentar retomar a actividade

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Apesar dos sérios danos, restaurante Ti Augusta, dos Pousos, voltou a trabalhar com take away
DR
Daniela Franco Sousa

Duas semanas após a passagem da depressão Kristin, há empresas da região que permanecem totalmente paradas, mas há também negócios que estão a reabrir, a velocidades muito diferentes.

Segunda-feira, em reunião de Câmara, Paulo Vicente, presidente do Município da Marinha Grande, reportava a dimensão dos estragos no concelho. Além de ter mais de 90% das casas e mais de 90% do tecido empresarial afectado pela intempérie, a Marinha Grande ainda tinha 27% da população sem electricidade, um retrocesso face a 5 de Fevereiro, quando a percentagem era de 15%.

Perante a gravidade da situação, o município exigia à E-Redes a reposição urgente e completa do abastecimento eléctrico e a assunção de responsabilidades pelos danos causados a famílias e empresas.

Manuel Oliveira, secretário-geral da Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol), que representa um dos sectores seriamente afectados pela intempérie, também explicou ao JL que foram muitas as empresas parcial ou totalmente destruídas e que ainda não foi possível precisar o valor dos prejuízos. Para ajudar na recuperação das indústrias afectadas, a Cefamol criou, entretanto, a Bolsa de Disponilidade, onde as empresas lesadas pela Kristin podem indicar quais são as suas necessidades e outras podem informar sobre os recursos que detêm para apoiar.

À agência Lusa, José Couto, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, disse que na indústria de componentes automóveis, há fábricas que ainda não conseguiram retomar actividade. Confirmou que algumas unidades permanecem inoperacionais devido a danos severos em edifícios e equipamentos, situação que levou clientes europeus a rever planos de produção e, em alguns casos, a parar linhas.

Segundo a associação, cerca de 20 empresas do sector, situadas entre Aveiro e Alcobaça, foram directamente afectadas. Quanto aos principais impactos, deverão sentir-se em Espanha e Alemanha, mercados fortemente dependentes de fornecimentos a partir de Portugal, mas também em França, onde já se registam constrangimentos produtivos associados a estas paragens.

ACIMG pronta para ajudar sócios e não só

Susana Santos, vice-presidente da Associação Comercial e Industrial da Marinha Grande (ACIMG), refere que, na cidade, o comércio, os restaurantes estão a reerguer-se. Em piores condições está o comércio na Freguesia de Vieira de Leiria, sobretudo na praia, onde os danos nas instalações, e o fornecimento de electricidade e telecomunicações, que são ainda muito pontuais, não permitem retomar a actividade.

Outro grande problema, frisa, é que são muitas as fábricas do concelho que ainda estão paradas. Susana Santos teme que uma grande vaga de desemprego venha a crescer na Marinha Grande. “Ainda há pessoas que não receberam os seus ordenados”, salienta a dirigente da ACIMG.

Susana Santos conta que é muito difícil operacionalizar contactos, tratar de papéis e burocracias. “O nosso papel é estar do lado das pessoas, associados e não associados e foi nesse sentido que criámos um gabinete de apoio”, conta ainda. Em articulação com o município, a ACIMG criou, no Centro Empresarial da Marinha Grande, o Gabinete de Apoio ao Empresário, dirigido a todas as empresas e independentes, que presta apoio directo, prático e gratuito (no preenchimento de formulários e candidaturas a apoios; esclarecimento sobre medidas disponíveis e novos apoios; orientação para retoma da actividade; elaboração de planos de negócio e estratégias de recuperação).

“Olhar para o comércio sem bandeira política”

De acordo com o inquérito realizado pela Associação de Comércio, Indústria, Serviços e Turismo da Região de Leiria (Acilis), dirigido a 520 empresários de Leiria, Batalha e Porto de Mós, até sexta-feira, face aos diversos danos registados nos seus estabelecimentos (nos equipamentos, janelas, telhados, fachadas, mercadorias, etc.), 68% dos inquiridos respondeu que não prevê parar a actividade. No entanto, 19% dos empresários não responderam/tinham estabelecimento fechado e 13% admitiram mesmo ter de parar o negócio.

Ao JL, Lino Ferreira, presidente da Acilis, disse acreditar que a esmagadora maioria do comércio nestes concelhos já esteja em funcionamento. “Mas tenho a sensação que alguns não voltam abrir”, lamentou.

“É preciso saber em concreto como vai funcionar o lay off, que tipo de isenções fiscais vai haver, e o Governo tem de olhar para o comércio sem bandeira política. Os comerciantes têm compromissos com a banca, com fornecedores, etc.”, realçou. E é preciso recuperar as indústrias para que as pessoas tenham os seus vencimentos e possam fazer consumo. Porque até agora, contou, não há movimento nas lojas.

Apesar do cenário, realça que “os empresários de Leiria são muito fortes, resilientes e podem contar com o presidente Gonçalo Lopes e com toda a vereação. Têm sido incansáveis”.

Através da rádio, o Muralhas, restaurante de Leiria, deu a conhecer os seus avultados prejuízos, mas partilhou também a sua vontade de se reerguer. Sexta-feira, com água levada para o estabelecimento com a ajuda da comunidade, começou a fazer refeições no espaço menos afectado pela intempérie.

Também Eduardo Figueiredo, dono do Ti Augusta, restaurante familiar nascido nos Pousos em 1958, disse ao JL que não irá baixar os braços. Apesar dos sérios danos, sobretudo na cobertura do estabelecimento, o restaurante voltou a confeccionar almoços, em regime de take-away. “Trabalhamos por marcações até às 11 horas”, indicou o proprietário.