Palavra de Honra | Se eu encontrar a respiração quando tudo sufocar, as paisagens serão o suficiente.
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Palavra de Honra | Se eu encontrar a respiração quando tudo sufocar, as paisagens serão o suficiente.
15 mar 2026 09:00
Ricardo Gomes, 14% formador, 86% artista plástico
Já não há paciência...para quando nos dizem "tem paciência". "Paciência é o nome de uma vaca velha" que nos há-de tomar o cadáver nos braços e arrastá-lo para uma valsa sem termos consciência de nos rendermos a ela.
Detesto...ir em romaria; o coaching; essa fancaria para cegos mentais destinada à maralha de pascácios rendidos ao paleio motivacional do mais ordinário livro de auto-ajuda. Esse acabado produto das lavagens ao cérebro em que a capacidade de raciocinar, de pensar, está reduzida a reproduzir clichés, frases feitas que lhe foram embutidas no que lhes restou do cérebro, e do verme em que o transformaram.
A ideia...de mercadoria em que nos querem tornar, neste ambiente de supermercado, quando, na verdade, o que estamos é demasiado vazios, demasiado vendidos ao que nunca quisemos comprar.
Questiono-me se...a calçada portuguesa que para lá das suas qualidades estéticas com o atributo de rapidamente se povoar de inesperadas depressões, alçapões e relevos, se é ou não este tipo de pavimento ser deliberadamente concebido para nos fazer tropeçar - e, desse modo encher de felicidade os que não caem - ou a hipótese hermenêutica de o seu verdadeiro fito ser o de nos educar de cabeça baixa a olhar para o chão.
Adoro... sentir na boca, dispostas em gomos, o sabor e a leve maneira de outros tempos de uma laranja.
Lembro-me tantas vezes...se posso fazer mais do que reduzir a velocidade, contrapor a vertigem de outro ritmo, nesta condição agonizante de reclamar um qualquer triunfo para deter o tempo, romper a sua marcha.
Desejo secretamente...afogar-me aflitivamente no sabor do teu gosto, Babe.
Tenho saudades... dos meus pais, de acampar, o que em ambos os casos é mais uma questão de silêncios do que palavras.
O medo que tive... de expelir as bolhas de ar num drama de afogado por não conseguir tornar real o que desejei.
Sinto vergonha alheia...da snobeira, da empáfia, da petulância, dos afetadinhos da vida, dessa condição de seita da afetação material, social, cultural, da fanfarronice engraxada, da frivolidade empertigada de quem reclama para si o estatuto, seja ele qual for. Por outro lado, se não rima pelo menos faz elipse: sinto vergonha alheia de um primeiro ministro com esperteza de imbecil, e pelo grunho que nos calhou em sorte, que é o líder do maior partido da oposição, e que se dedica a regurgitar a má digestão, a rezinguice e ao enredo intestinal.
O futuro... é da sua vocação ser destino incerto. Está "em contexto de invisibilidade"como diria por estes dias uma figura grada da nação. Que o futuro se veja no espanto do olhar de um catraio afoito, e na sua correcção à luz rala do mundo.
Se eu encontrar...a respiração quando tudo sufocar, as paisagens serão o suficiente.
Prometo..."dizer a verdade mesmo quando minto" (em tradução livre). "I always tell the true even when I lie" (Tony Montana in Scarface).
Tenho orgulho... de não colher os louros do auto elogio. Que é sempre essa forma última e acabada de estupidez.