DEPRESSÃO KRISTIN
Vítima mortal na Boa Vista foi a primeira nota de uma partitura de dor
“Aquele morto, foi logo o baptismo da tempestade”, recorda Paulo Felício
A imagem de 28 de Janeiro de 2026, que ficará gravada na cabeça do presidente da União de Freguesias de Santa Eufémia e Boa Vista, Paulo Felício, para sempre, será a da chegada ao parque solar de Fonte do Oleiro, na antiga freguesia da Boa Vista.
Ali, dois contentores haviam sido arrastados por mais de dez metros como se fossem de papel.
No chão, jazia o corpo do guarda nocturno, Rogério Parente.
Estava tapado por um cobertor, rodeado de sangue que tingia o chão lamacento.
“Aquele morto, foi logo o baptismo da tempestade”, recorda Paulo Felício, ainda com um nó na garganta. A vítima, com cerca de 40 anos, era natural do concelho de Ansião e vivia nos Marinheiros, nos arredores de Leiria.
Sozinho, no escuro, rodeado de ventos infernais que levantaram o contentor onde passava a noite, terá saído em aflição ou sido cuspido de dentro dele, sendo imediatamente esmagado.
A sua morte foi a primeira nota de uma partitura de dor que a freguesia teria de interpretar nas semanas seguintes.
A noção do que se passava e o isolamento foram instantâneos.
Paulo não conseguia telefonar para o 112, para a GNR ou sequer chegar a Leiria, devido aos engarrafamentos de quem tentou chegar ao emprego, apesar da destruição, aos destroços e estradas cortadas.
“Por fim, vi um carro da GNR e pedi que, por rádio, mandassem vir alguém.”
Para o autarca e para quem encontrou o corpo de alguém que ali cumpria o seu turno de vigilância, é uma das feridas mais profundas provocadas pela tempestade.