Opinião

Da (falta de) subtileza

2 out 2020 11:40

Em tom de conclusão, avisou que “Portugal “tem de escolher agora” entre o aliado ou o parceiro comercial, EUA ou China”.

No fim-de-semana que passou, Portugal foi brindado com um conjunto de avisos de um empresário americano, amigo de Donald Trump.

O senhor George Glass indicou, em entrevista ao Expresso, que se a “empresa chinesa Huawei entrar no 5G em Portugal, a relação na defesa entre Portugal e os Estados Unidos irá mudar”.

Continuou, também, dizendo que “se os chineses ganharem o concurso para o segundo terminal de Sines, o destino no gás natural liquefeito será diferente” e que “entrada da CCCC [chinesa] na Mota-Engil pode dar lugar a sanções contra a empresa”.

Em tom de conclusão, avisou que “Portugal “tem de escolher agora” entre o aliado ou o parceiro comercial, EUA ou China”.

Estas frases seriam meras bojardas se não fossem proferidas pelo embaixador dos EUA em Lisboa. Ditas, então, em representação de um Estado, são ameaças nada veladas a uma República soberana e democrática. Não é, no entanto, de estranhar.

A Administração Trump não é particular admiradora de democracias, preferindo regimes como as Filipinas e a Coreia do Norte, e líderes como Putin ou Modi.

Contudo, há um regime igualmente musculado e um líder identicamente inamovível que Trump e a sua entourage parecem não apreciar publicamente: a China de Xi Jinping.

A China do início do século XXI é o principal adversário geopolítico dos EUA.

Aliás, não é apenas o principal adversário: é o sucessor enquanto principal potência económica no Mundo.

Nos últimos vinte anos o PIB da China praticamente quintuplicou enquanto o PIB dos EUA cresceu 40% [dados do Banco Mundial]. E, sobretudo, assistiu-se a uma rápida transformação do tecido económico chinês: já não há apenas fábricas baratas de produtos de fraca qualidade: há inovação, liderança tecnológica e os melhores e maiores produtores em muitas áreas.

Há, sobretudo, uma visão clara e de longo prazo para atingir o papel de liderança.

Esta situação, que preocupa os EUA e muitas das suas empresas, tem sido abordada pela Administração Trump com as costumeiras inabilidades e incompetências.

A guerra comercial que inclui tarifas e restrições ao comércio com a China, bem como sanções e exclusões a empresas chinesas, tenta manter o status quo americano com agressividade e espírito de rufia.

O espírito de rufia não se fica pela relação com a China, e espalha-se também na relação com os aliados históricos – como é agora visível neste episódio com Portugal.

As ameaças vãs, como as proferidas pelo embaixador americano, mostram a falta de compreensão sobre as subtilezas do mundo.

Não só é impossível que os EUA percam todos os seus aliados, como ficarão evidentes os recuos que serão inevitáveis. Até Portugal foi forçado a responder que “em Portugal as decisões são tomadas pelas autoridades portuguesas competentes”.

A incompetência e tacanhez da Administração Trump faz com que usem a ameaça e a agressão ao invés da subtileza diplomática.

Como sabem os bons diplomatas, apanham-se mais moscas com mel.

E, em diplomacia, o mel mais eficaz é o tão necessário vil metal!

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